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21 de junho de 2026

Ainda não...

Num café escondido no coração de Barcelona, Christelle descobre que o desejo mais perturbador não é aquele que se impõe — é o que sabe esperar.

Ainda não...

Como todos os domingos, ele ia sentar-se na esplanada daquele pequeno café perdido na cidade velha de Barcelona.

Pedia sempre a mesma coisa: um café com leite, muito quente.

E sempre o mesmo lugar — aquele à sombra, encostado à parede de pedra morna que ainda guardava o calor do dia anterior.

Ficava horas a escrever.

O caderno aberto à sua frente, o olhar às vezes perdido no vazio, às vezes intenso, quase habitado. Tinha aquela maneira estranha de estar ausente do mundo e ao mesmo tempo dar a impressão de observar tudo.

Christelle olhava para ele muitas vezes.

No início por curiosidade.

Depois por hábito.

Depois por uma razão que ela já não queria bem nomear.

Trabalháva ali há dois anos. Conhecia os homens. Os olhares pesados. Os sorrisos insistentes. As conversas que andavam à procura de alguma coisa.

Ele não tentava nada.

E era precisamente isso que a perturbava.

Nunca uma palavra a mais. Nunca uma tentativa desajeitada. Nunca aquela fome visível que ela sabia reconhecer de imediato.

Mas havia outra coisa.

Uma tensão calma.

Como se o desejo dele não quisesse tomar. Como se pudesse esperar.

E isso desarmava-a completamente.

Naquela manhã, ela trazia um vestido leve cor de sálvia que deslizava pelas coxas a cada movimento. O cabelo preto estava meio preso apenas, deixando algumas madeixas cair sobre a nuca.

Quando se aproximou com o café, ele ainda estava a escrever.

— O seu café.

Ele ergueu os olhos.

E de imediato, qualquer coisa se deslocou.

Não um sorriso.

Não um gesto.

Apenas aquele olhar.

Denso. Lento. Masculino.

Como se ele estivesse verdadeiramente a tomá-la pelo tempo que fosse preciso.

O ventre dela contraiu-se na hora.

Sentiu o calor subir pelo peito e depois mais abaixo, sem avisar.

Durante um segundo, esqueceu completamente o que tinha vindo dizer.

Ele não desviou os olhos.

Olhava-a com uma calma quase insolente.

Como se tivesse sentido exatamente o efeito que produzia nela.

E o pior era que ela tinha a impressão de que ele nem sequer estava a jogar.

— Obrigado, Christelle.

A voz era baixa. Suave.

Ela sentiu um arrepio percorrer os braços.

Como podia ele pronunciar o seu nome daquela maneira?

Fez um esforço para se recompor.

— Precisa de mais alguma coisa?

Um silêncio.

Muito curto.

Mas comprido o suficiente para se tornar perigoso.

Os olhos dele desceram uma fração de segundo até à boca dela antes de voltarem aos seus.

E dessa vez ela sentiu claramente a respiração trancar.

— Ainda não.

Ela voltou para dentro do café de imediato.

Rápido demais.

Como se ficar mais um segundo perto dele fosse uma má ideia.

Com as mãos pousadas no balcão, inspirou fundo.

O coração batia forte de mais.

Era ridículo.

Completamente ridículo.

E mesmo assim o corpo inteiro parecia ainda a vibrar com aquele olhar.

Com aquela maneira que ele tivera de a olhar sem impaciência.

Sem nervosismo.

Como se já estivesse a saborear alguma coisa.

Tentou voltar às contas, mas sentia a presença daquele homem lá fora como se fosse um calor persistente.

Minutos depois, viu-o entrar no café.

Ia à casa de banho antes de sair.

O corredor era estreito.

Demasiado estreito.

Ela ficou sentada na banqueta alta atrás do balcão enquanto ele avançava devagar na sua direção.

Cada passo parecia carregar ainda mais o ar entre eles.

Quando chegou à sua altura, ela teve de recuar ligeiramente as pernas para o deixar passar.

O joelho dele roçou por acidente a coxa nua dela.

O contacto foi mínimo.

Mas o corpo dela reagiu de imediato.

Uma descarga lenta atravessou-lhe o ventre.

Sentiu os lábios entreabrindo-se sem querer.

Ele parou.

Apenas um segundo.

Tempo suficiente para perceber que ele também tinha sentido.

O silêncio tornava-se quase obsceno.

Ela conseguia sentir o perfume dele agora.

A mistura do café, da pele quente e de qualquer coisa mais escura.

Masculina.

Muito masculina.

Ele pousou uma mão no balcão junto dela para se apoiar na estreiteza da passagem.

O braço estava tão perto que ela tinha vontade de o tocar.

E esse pensamento quase a apavorou.

Ele rodou ligeiramente a cabeça na sua direção.

Os rostos ficaram a apenas alguns centímetros.

Ela sentia literalmente a respiração dele contra a pele.

Os olhos dele desceram até à boca dela.

Depois subiram.

Devagar.

Como uma carícia.

E naquele instante preciso ela compreendeu uma coisa terrivelmente simples:

se nenhum dos dois recuasse, iam beijar-se.

O coração batia com violência agora.

Devia ter-se mexido.

Dito alguma coisa.

Feito qualquer coisa.

Mas o corpo recusava-se.

Como suspenso.

Como se estivesse à espera exactamente disto há semanas.


A próxima fuga te espera, toda semana.

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